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Tem uma nave de diamantes na Bahia

Imbassaí é um diamante da Bahia. O encontro do rio com o mar é um encanto, a Lagoa Jauara e suas águas calmas avistam o azul do oceano e uma imensidão de coqueiros, as jangadas revelam a tradição do lugar que tem até uma nave. E essa nave mais que espacial é o fio que conduz essa narrativa de pirilampos. A nave não tem um comandante oficial nem autoproclamado como tal, mas há uma figura icônica que abre os portões para exposições de mandalas, artesanato, literatura, música e uma energia de calmaria e de abundância espiritual.

Quem abre o portal da nave é Antônio Carlos Diamantino ou simplesmente Diamante. E a simplicidade é marca orgânica de Diamantino, um artista autodidata que passeia por diversas linguagens, da culinária à pintura, das artes plásticas à percussão, do canto de um negro sexagenário à sua poesia de vida que faz transbordar nele e nas pessoas o que há de mais pulsante e verdadeiro. “Estou aqui para viver. Ninguém está na vida por acaso. Se vivêssemos em comum acordo com a nossa natureza e sabendo conviver com as diferenças, tudo seria mais simples. Ter sucesso é saber que você está fazendo a coisa certa. Eu vivo e a vida é uma certeza sublime quando compartilhada com as pessoas”. E Diamante compartilha arte e solidariedade por onde passa.

Quem me levou até a nave foi o governador. Isso mesmo: o governador mora em Imbassaí. Declamar poesia deveria ser lei. E lá eu estava na beira do rio a recitar Drummond, Pessoa, Cora, Cecília, Gregório, Quintana, Clarice, Machado! E o governador me chamou. E aí, homem! Você tem de conhecer um lugar. Vou te levar lá! Como contrariar o governador? Fui ao encontro da nave e me surpreendi com aquele portal aberto para dimensões fluídas como as águas de Imbassaí. A nave é o lugar da arte, uma síntese de uma Bahia litorânea, interiorana, multicolorida como um quadro de Carybé e com personagens tão pitorescos que parecem que saíram de um livro de Jorge Amado. A nave é uma ilha dentro da ilha. É um espaço cultural que acolhe artistas de outros estados e países. Os grandes artistas têm como hábito a generosidade. Compartilhar a arte, como o pão nosso de cada dia, é o que nos torna mais humanos ou talvez realmente humanos. Mestre dos bordões e das boas gargalhadas, Diamante é luz rara. Ele e sua companheira Lina são preciosidades da nave, um espaço que conta com pinturas deslumbrantes e uma biblioteca comunitária.
A nave dispõe de uma loja com vendas compartilhadas, a tão necessária e pouco praticada economia solidária. Em tempos pandêmicos, praticar a solidariedade é o grau máximo de civilidade e de respeito à vida. Os artistas se reúnem e organizam o espaço para mostrarem seus trabalhos. A nave é uma união de diamantes: Nicole, Tici, Jô, Bira, Val Santos, Rosa, Yolanda e Nilsão, o nosso governador que me abduziu para a nave mais suave da Bahia. A classe artística é a mais afetada com a pandemia. O ateliê, que ajuda na complementação de renda dos artistas, funciona de acordo com as medidas restritivas decretadas. O contexto atual para os artistas brasileiros é preocupante. Mas a nave de diamantes é resistente e repleta de humanidades que amenizam a dureza do cotidiano. Nietzsche pontou assertivamente sobre isso: “A arte existe para que a realidade não nos destrua.”
Éverlan Stutz é poeta, jornalista, professor, ator e compositor.

Fotos: Nicole Santelices

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