Fato Real
Destaque Você Repórter

Ser jornalista em tempos de pandemia

Em março de 2020 foi publicado o decreto municipal que previa pela primeira vez o fechamento temporário do comércio de Conselheiro Lafaiete. No mês seguinte houve o primeiro óbito pela doença. Um ano depois vivemos uma tragédia inimaginável: passamos dos 130 mortos e de mais de 8000 casos positivos desde o inicio da pandemia; felizmente, com 7943 pessoas recuperadas.

São tão astronômicos os números que muitos perderam a capacidade de entender que cada vez que falamos ou escrevemos estes dados estamos nos referindo a pessoas: pais, mães, avós, filhos irmãos, tios, maridos, esposas, amigo, etc.Eu não quero perder esta capacidade.

Eu sou jornalista. E aqui passo a falar em primeira pessoa. Não quero perder a vontade de chorar a cada notícia dada. Há gente ainda sendo induzida a pensar que jornalistas viraram inimigos do país, que “gostam é de desgraça”, “que notícia ruim é que vende” e tantas outras baboseiras que ouvimos cada vez com mais frequência . Não. Eu não gosto disto. Eu não quero isto. Levanto todos os dias e vou para o trabalho, agoniada por não encontrar notícias que aliviam o coração dos meus ouvintes e leitores; salvo raras exceções. Porque além da pandemia lidamos com as notícias policiais, a falta de transporte coletivo, com a falta de água em bairros da cidade, acidentes (e a famigerada BR 040)  e todos os outros problemas que parecem ter sido jogados temporariamente para debaixo do tapete e que agora ecloam no município. E ainda tivemos uma eleição em meio a tudo isso.

Desconheço jornalistas e profissionais da comunicação que não estejam esgotados física e psicologicamente um ano depois de iniciar esta pandemia. Eu não pude fazer home office, ao contrário, vou para a rádio, para a rua, entro em hospitais, entrevisto pessoas. Ouvi neste um ano histórias comoventes. Chorei em entrevistas com quem perdeu familiares e amigos. Fiz denúncias, busquei informações onde foi possível. Fui criticada, apontada como quem só dá notícia ruim e quer espalhar o caos e o medo, como se uma pandemia e dados pudessem ser inventados.

Mudei de opinião várias vezes. Fui a chata do “fique em casa,  use máscara e álcool em gel ”.  Passei a lidar diariamente com números de infectados e mortos; e isto é doloroso demais. Incentivei denúncias. Defendi fechamentos e flexibilizações em ocasiões diferentes. Saí em defesa de quem eu achava que tinha direito a vacina em grupos prioritários (caso, por exemplo, dos profissionais que trabalham em funerárias). Ouvi além dos dois lados de uma história, todos os lados que queriam falar. Fiquei entre grupos divergentes que achavam que economia e vidas não estão diretamente associadas e fui criticada ou compreendida por um ou outro, também em ocasiões diferentes. Fui ameaçada de processo judicial.

Produzi e apresentei (junto com o colega Fernando Baeta)  um programa específico sobre a pandemia para cinco emissoras de rádio ao mesmo tempo, sabendo que tudo era novo e as chances de errar eram muitas.  As informações veiculadas eram replicadas em toda região, além dos boletins que compartilhava com colegas de outras cidades.  Quando mais precisava que “autoridades” falassem do assunto, muitas delas sumiram, evitavam dar entrevista, tentavam não falar de números e não apontavam ações. Entraram num jogo de empurra-empurra de responsabilidades enquanto a população esperava pelo Jornal Falado Carijós para saber as notícias e o que a Gina ia falar. A responsabilidade aumentou. E só não falei quando não tinha embasamento ou segurança pra fazê-lo. Falei de vacina. Acompanhei chegada das primeiras doses, cobrei calendário e transparência.

Neste período perdi a concentração na redação, segurei choro ao vivo e perdi a voz em meio a leitura de dramas alheios. Não sabia mais qual manchete colocar em matérias sobre Covid-19 no Fato Real. Vi colegas de profissão sendo contaminados e morrendo por Covid.

Adoeci na pandemia. Não fui contaminada pelo vírus. Não tive Covid. Mas o cansaço físico, e emocional levou a crises de hipertensão, hiperglicemia, de enxaqueca e insônia. Em meio a isso tem a preocupação com a família, os amigos e quem eu amo. Sim, jornalista tem família, tem vida particular, apesar do celular ficar 24h ligado e  tocar sem parar.

O desabafo é para dizer que hoje é Dia do Jornalista. E a realidade da profissão é bem menos glamorosa do que muitos acreditam. Nem  todas as informações são possíveis de serem apuradas e nem todo fato vira uma reportagem ou história a ser publicada. A carga está pesada, as equipes muitas vezes são do “eu sozinho”. Ser jornalista, ainda mais no interior, é fazer tudo e estar muito próximo de quem é o alvo da sua denúncia e ser alvo fácil para eles. E ter sempre um grupinho para achar que você é vendido ou comprado, de esquerda ou direita do lado A ou B.

Ser criticada faz parte da minha rotina profissional. Mas também é necessário que se diga  que sempre há quem quer que notícias sejam dadas e os que querem ocultar fatos. Se parte do leitor quer a foto do bandido estampada na capa tem o advogado dele só esperando isto acontecer para mover um processo. Se querem que uma ficha criminal seja divulgada, tem a família e amigos criticando e pedindo empatia. Se querem que os políticos sejam xingados, há o direito de resposta.

Como já disse em ocasiões anteriores há uma grande diferença entre jornalismo e rede social. Entre ser ético e responsável, ter credibilidade e apenas fazer. Eu sou jornalista.

Gina Costa
07/04/2021
Jornalista vivendo a pandemia do novo Coronavírus.

Se você quer ver sua reclamação, foto, denúncia ou elogio no Fato Real; se quer enviar uma pauta ou sugestão de reportagem, envie seu email para [email protected]

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!