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Humildade e ostentação nas redes sociais

Humildade e ostentação são paradoxos da virtualidade. Ostentar é o abre-alas deste século. E os perigos disso podem gerar frustração, ansiedade e comparações desnecessárias. Nas redes sociais poucos exibem suas mazelas.  São compartilhadas as melhores selfies, os ângulos mais incríveis e a pele impecável via Photoshop. Praticar a humildade é não cair nessas armadilhas que as redes projetam e que a maioria das pessoas cultua em postagens que servem para reafirmar atitudes egocêntricas de autorreferência.  Buscar a humildade requer a capacidade de nos mostrar como somos, sem filtros, sem os artifícios de tecnologias que camuflam o cotidiano.

Vamos atentar para a etimologia da palavra humildade. No latim, o radical hum significa “da terra”. Dele, viria a palavra humano, como ensina a Bíblia, Adão foi criado do barro. A humildade é a simples atitude de manter os pés no chão que pode ser comparada a uma capacidade de compreender a realidade onde estamos inseridos. A maioria dos internautas está com os pés na ‘nuvem’ para arquivar os recortes dos melhores momentos e ostentá-los na web. Essas pessoas não pretendem saber a vida como ela é. Querem likes, elogios para massagear o ego e comentários para alavancar as postagens. A tão copiosa frase “me segue no insta” revela que a caça por seguidores é uma patologia humana bem acentuada neste início de século.

O simulacro da humildade também está presente nas redes. A modéstia fabricada é tão perigosa quanto a ostentação desenfreada. O poeta Mário Quintana também colocou em pauta essa ambivalência ao afirmar que “a modéstia é a vaidade escondida atrás da porta”. Os humildes fakes querem vender uma elegância forjada e erram ao vangloriar a humildade. Ostentar a humildade é uma estratégia de disfarçar a própria pequenez.

Apesar dessa relação ambivalente, é necessário buscarmos algum diálogo possível com nossos semelhantes. Torna-se crucial compreender a realidade social por mais cruel que ela seja. É necessário mantermos os pés no chão para descalçarmos os preconceitos e as crenças limitantes que pasteurizam nossa compreensão. Como eternizou o polímata Leonardo da Vinci. “A simplicidade é o último grau da sofisticação”.

ÉverlanStutz é jornalista, poeta, professor, ator e compositor

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