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Adeus, Zé!

Neste 3 de março, nosso amigo Zé Carlos Seabra nos deixou, depois de uma brava luta contra a Covid 19.

Toda perda de amigos, familiares e outros entes queridos nos deixa sem chão, em um triste vácuo. No meio da pandemia, esta sensação se torna ainda mais esquisita, diante da impossibilidade da despedida e de não poder abraçar a família enlutada (e, infelizmente, também contaminada). Resta-nos rezar, orar, meditar, torcer, emitir boas vibrações, na esperança de que seu espírito siga um caminho iluminado e que a família supere a doença e a tristeza.

José Carlos é um amigo que conheci por volta da virada do milênio. Na época, eu acabara de retornar para Lafaiete e ele estava transformando a antiga loja ‘A Colibri’ no ‘Espaço Lafayette’, um mix de galeria de arte, café, livraria e local para eventos culturais. Logo fizemos uma parceria, em que eu prestava serviços de divulgação daquele local que, ao longo de uma década, reuniu muita gente boa em torno de arte, café, livros. Fiquei responsável pelas artes dos convites, cartazes e outros impressos, pelos boletins com a programação semanal(enviados por e-mail aos frequentadores) e pelos textos e imagens enviados à imprensa, que sempre apoiou e deu o devido destaque à iniciativa. Eu também ajudava na montagem de exposiçõese na produção dos eventos culturais.

A criação do Espaço Lafayette foi uma evolução natural das exposições que, anos antes, José Carlos e a esposa Fátima Milagres realizavam em sua residência. O Espaço não era um centro cultural público ou mantido com apoio de verbas de editais ou leis de incentivo. Era privado, mas estava sempre aberto ao público, acolhido com toda atenção e carinho pelo Zé Carlos, sua família e funcionários. Aquele ambiente gentil, sempre cheio de novidades, logo se tornou um ponto de encontro para os interessados em arte e cultura, sobretudo aos sábados. Em tais ocasiões, o Zé atuava como um perfeito anfitrião. Não só recebia bem, como sempre procurava apresentar uns aos outros, fazendo nascerem conversas, afinidades, amizades e até amores. Ali, as rodas de bate-papo eram sempre muito interessantes e divertidas, entremeadas por um ou outro trocadilho-hábito que o Zé compartilhava com o amigo Jorge Inácio, responsável pela criação da logomarca do Espaço Lafayette, em que um simpático boneco em forma de livro toma café sentado numa poltrona. Para ajudar a manter o Espaço, Zé Carlos criou a animada happy hour de quinta-feira, com a boa música ao vivo lafaietense.Uma grande diversidade de cursos, seminários, palestras, lançamentos de livros, saraus de poesia, apresentações de corais e até uma ópera aconteceram no versátil Espaço Lafayette.

Paralelamente, aqui em Lafaiete, Zé Carlos foi presidente do Conselho Deliberativo Municipal do Patrimônio Histórico Cultural e também promoveu o ‘Projeto Cinema & Filosofia’, em parceria com o amigo Aloísio Silva. Com este, anos antes, ainda atuou na ALAC – Associação Lafaietense dos Amigos da Cultura.

Por muitos anos, o Espaço Lafayette foi a única livraria da cidade e, infelizmente, também foi a sua última galeria de arte, onde também tive a alegria de expor meu trabalho de artes visuais e arte-educação. A interrupção das atividades, há uma década, deixou nossa cidade culturalmente mais pobre. Por outro lado – ou “do outro lado do balcão” -,com o mesmo entusiasmo que dedicara ao Espaço, José Carlos Seabra passou a dedicar-se ao seu talento como artista plástico. Sua criação foi intensa, produzindo uma série de pinturas, objetos, oratórios, obras em técnicas mistas e instalações. A seu convite, tive a oportunidade de dividir com ele estandes nas últimas edições da também saudosa feira CasAtual, em Lafaiete e Ouro Branco. Ele também mostrou seu trabalho em Santana dos Montes e Belo Horizonte, nesta com um coletivo de artistas regionais. Recentemente, realizou duas belas exposições individuais em Lafaiete – uma retrospectiva em um espaço privado e outra no Museu Perdigão. E José continuava animado. Acabara de construir um ateliê na zona rural e seguia com seus planos de novas obras, novas mostras e confraternizações em torno da arte. Até que teve um fatídico encontro com o coronavírus, que lhe roubou a vida.

Nos últimos dias, com o falecimento de Dona Avelina Maria Noronha de Almeida e de José Carlos Seabra Henriques, a história, a educação, a cultura e a arte lafaietenses sofreram perdas irreparáveis. Mas o trabalho e generosidade destes dois queridos lafaietenses deixaram muitos frutos. Que continuemos desfrutando e multiplicando este legado!

Hélcio Queiroz
Designer e artista visual.
Presidente do Ponto de Cultura Associação AMAR.

PS: Apresento uma das colagens que fiz no ano passado. Nesta, uma homenagem ao Zé e ao seu Espaço Lafayette.

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