Fato Real
Coluna Vou Falar - por Aaron Fenix Gerais

A Semana Santa

A Semana Santa está começando e sempre traz algumas recordações. Disse certa vez Machado de Assis: “A Semana Santa de outro tempo era, antes de tudo, muito mais comprida. No Domingo de Ramos, as palmas que se traziam das igrejas eram muito mais verdes que as de hoje. Verdadeiramente já não há verde. O verde de hoje é um amarelo escuro. A segunda-feira e a terça-feira eram lentas, não longas; não sei se perceberam a diferença. Quero dizer que eram tediosas. Raiava, porém, a quarta-feira das trevas; era o princípio de uma série de cerimônias, e de ofícios, de procissões, de sermões de lágrimas, até sábado de aleluia, em que a alegria reapareceria, e finalmente o domingo de Páscoa que era a chave de ouro”. E eu comungo das palavras do grande Machado, já que as semanas santas eram assim:

Os padres vestiam paramentos ritualísticos de cor púrpura. As imagens dos santos, dentro das igrejas, eram escondidas por panos roxos e tudo isso transmitia uma atmosfera de mistério e de pavor.

Na Quinta-Feira Santa e na Sexta da Paixão as pessoas ficavam com cara de enterro, não riam, quase nem conversavam nem saíam de casa, não comiam carne, pois tudo o que fizessem era pecado.

Na Sexta Santa o som das matracas parecia lúgubre, como se espalhasse a morte dentro dos templos e nas vias públicas.

Ninguém reservava com antecedência, nas agências de viagem, as excursões para as praias, onde a bebida, os bacanais e a luxúria profanam com naturalidade tudo o que – para eles – outrora era ou parecia ser sagrado, intocável.

No dia da paixão as crianças não podiam fazer barulho, de maneira nenhuma. Tínhamos que falar baixo, não podia jogar bola, nem ligar o rádio, nem rir ou chorar. Quem ousasse desobedecer a essa férrea disciplina era castigada no Sábado de Aleluia.

Tudo era preparado para nos abater com mais do que respeito: um pavor desmedido. Diziam que na Sexta Feira Santa uma procissão de almas desfilava pelas ruas da cidade e ninguém ousava sair de casa ou abrir as janelas.
Era uma religiosidade doentia, agourenta, psicótica, que não distinguia entre criancinhas e velhos para ameaçar com o fogo do inferno ao menor deslize.
Uma verdadeira aberração dos caminhos de amor pregados no Evangelho pelo crucificado e pela alegria profunda que exala das Epístolas do Apóstolo Paulo. O mais estranho de tudo isso é que o povo assumia essa neurose toda e parecia gostar de ser repreendido.

Mas o tempo passou, chegou a televisão, a internet e as pessoas afastaram-se das coisas sagradas, quer dizer, da maioria dos mitos que nos mantinham no cabresto.

Hoje em dia, apesar dos pesares (nem tudo é maravilhoso, infelizmente), a época da inocência já passou. Sabemos que Deus é liberdade, é amor e não é aquele verdugo cruel pronto a cortar as cabeças ao menor sinal de “desobediência”, nem exige dinheiro para demonstrar que é nosso Pai de verdade.

Tô Sabendo e vou falar!
Aaron Fênix

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