Fato Real
Coluna Vou Falar - por Aaron Fenix

Quem?

Quem nunca se viu diante de um estranho ao se olhar no espelho? Quem já não teve vontade de sair por aí perambulando por um dia inteiro, jogando futebol em campinhos de terra? Quem não levou a mão ao chapéu, mesmo sem jamais ter usado chapéu, para saudar a beleza de uma moça nas ruas da cidade? Quem já não se levantou ao amanhecer para se embriagar com a beleza do sol nascente e tropeçou nas pernas do tempo? Quem já não se sentiu desfalecer ao crepúsculo e renascer com a suavidade de certas noites de verão? Quem já não quis traduzir a vida em versos?

Quem não se lembra subitamente de coisas tão esquecidas como as palavras ditas a um amigo numa noite de domingo quando se sonhava com o futuro e se temia perder as amarras do passado? Quem não se esquece repentinamente do que deveria sempre ser lembrado como aquela paisagem natal pendurada na fotografia que se enviesou na parede? Quem já não se levantou ao amanhecer para se embriagar com a beleza do sol nascente e tropeçou nas pernas do tempo? Quem já não se sentiu desfalecer ao crepúsculo e renascer com a suavidade de certas noites de verão?

Quem não se vê preocupado com as doenças que virão e fazendo cálculos para tentar garantir a tranqüilidade que, cada vez mais, se mostrará como uma utopia, um aroma de estação, uma sensação de vertigem como aquela experimentada depois do primeiro beijo, da primeira viagem, do primeiro vôo, da primeira loucura? Quem já não se viu em algum momento do dia colhendo flores para enfeitar a mesa onde se empilham os projetos, as contas, os devaneios, as leituras e as pequenas satisfações: um cestinho indígena cheio de canetas, um pedaço de chocolate, o livro lido até a metade, uma carta, do tempo das cartas, exumada de uma velha pasta, o porta-retratos com suas cores, seus sorrisos e suas marcas da travessia? Quem não se sente com o coração apertado quando anda pelas ruas e vê a pobreza como se ela fosse tão “natural”? Quem não se pega, de repente, sorrindo com uma nostalgia não requerida nem convidada para se apresentar na sala de visitas?

Quem já não regou as plantas na varanda pensando nos recantos do quintal, aquele para o que nunca se usa artigo indefinido? Quem não molhou as mãos na água da pia e sentiu o frescor dos arroios e dos rios que correm distantes? Quem já não saiu para caminhar apenas para afastar a ansiedade, e se viu diante de um corredor de lembranças: cheiro de terra molhada, um pedaço de brinquedo colorido, risos de crianças no parquinho, frutas amadurecendo no pé, a vida passando suavemente ao som das máquinas e dos homens, dos pássaros e dos violões?

Quem nunca se pergunta não sabe as respostas!

Tô sabendo e Vou Falar
 Aaron Fênix

 

 

 

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