Fato Real
Coluna Vou Falar - por Aaron Fenix

Enchentes: uma tragédia anunciada!

O que ocorre com as chuvas de verão no Brasil e em especial em Minas Gerais todos os anos lembra o famoso romance de Gabriel Garcia Márquez, Crônica de Uma Morte Anunciada.

Sabemos que as chuvas ocorrerão e causarão inundações, desabamentos e mortes, mas não vamos conseguir evitá-las, como no romance. Executar obras públicas que atenuem as conseqüências de chuvas de maior intensidade é imprescindível para evitar catástrofes. Enquanto elas não saem do papel, medidas preventivas podem ser tomadas, como desenvolver ações para que a população não ocupe áreas de risco, e criar um sistema de alerta que avise com antecedência os locais onde precipitações e alagamentos ocorrerão.

No Brasil, os registros de desastres urbanos acontecem em áreas que nunca deveriam ter sido ocupadas – ou que, se fossem ocupadas, deveriam ter projetos urbanísticos e técnicas de construção específicas. No entanto, as administrações públicas municipais falham em fiscalizar e proibir esse tipo de ocupação. “Como pano de fundo propiciador dessas situações, há a incompetência, a irresponsabilidade, o descompromisso social e, em muitos casos, a conivência interessada da administração pública.”

Infelizmente, esse tipo de situação não é novidade para a população. Esses fatos marcantes não são apenas resultado de desastres naturais, e estão relacionados à forma como são organizados e planejados os municípios. O crescimento populacional desordenado, aliado a um planejamento urbano que não busca atender as necessidades reais da população, transforma as cidades em um ambiente repleto de contradições e desigualdades. Tais tragédias têm ainda relação com o aquecimento global, que está tornando o clima mais instável no mundo e que encontra causa direta na poluição brutal trazida por um modo de produção que estimula o consumismo desenfreado, o esgotamento dos recursos naturais e a degradação do meio ambiente e tudo isso aliado a uma população que joga lixo em qualquer lugar que melhor lhe convêm, esquecendo que na época das chuvas a natureza vem devolver tudo de ruim que foi jogado nela.

Vidas de dezenas de pessoas são perdidas, e a resposta do poder público tem sido ano a ano de favorecer cada vez mais a especulação imobiliária, que empurra o povo trabalhador para regiões de maior risco, como encostas ou áreas alagadiças. Isso, somado à falta de saneamento básico, de uma política efetiva de moradia, à precariedade dos sistemas urbanos de drenagem e a não preocupação com a preservação do meio ambiente tem trazido essas recorrentes tragédias.

Mais uma vez o drama dos alagamentos se repetiu em especial em Minas Gerais. Passamos o final de semana assistindo a intermináveis vídeos de cenas dramáticas provocadas por inundações e deslizamentos de terra que ceifaram a vida de mais de uma dezena de mineiros e mineiras e desalojou e desabrigou centenas. Não existe nada que irmane mais os seres humanos do que o sofrimento coletivo inesperado. Estes dão-nos a exata medida de nossos infortúnios e impotência. Alguns podem até dizer que os tempos são maus, que são sinais do fim. Que me desculpem os teólogos que pensam dessa maneira. A sucessão de terremotos, tsunamis e temporais está longe de ser sinal do fim dos tempos.

O que tragédias como as provocadas pela chuva torrencial que caiu sobre Minas Gerais apontam é que a lógica que orienta a maneira como organizamos a sociedade, a ocupação do solo, o uso dos recursos naturais e até mesmo como atribuímos sentido à vida estão equivocados, fundados em um sentimento egocêntrico, ambicioso e injusto, o que se reflete na desigualdade, na intolerância, na violência e na ignorância a que a sociedade está mergulhada de um modo geral.

Acho ruim tratar dessa questão e não apontar caminhos para soluções. O problema é que o caminho para a solução desse dilema em que vivemos passa pelo diálogo e pela humildade de confessar que as tentativas têm sido insuficientes para dar fim a todo esse drama. Penso que isso só poderá acontecer quando buscarmos conhecer a nós mesmos e nos descobrirmos como incapazes de ter o controle de todas as coisas. Só assim poderemos tomar decisões que levem em conta a lógica do criador de todas as coisas. Quem sabe nessa época poderemos escolher representantes mais justos e honestos para cuidar de nossa sociedade e que essa mesma sociedade aprenda a viver de forma mais sustentável. Quem sabe também poderemos construir um futuro melhor, menos desigual, levando em consideração que aquilo que não é bom para mim, também não o é para quem quer seja. Quem sabe desenvolveremos um estilo de vida que se importe mais com o que estamos nos tornando do que com o que estamos possuindo.

Tô Sabendo e Vou Falar!
Aaron Fênix

 

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